A saga dos triatlos
Eu comecei o post passado falando de triatlo e não dei mais nenhum detalhe, então aqui vai a história completa, e já com o clickbait pra engajar o leitor: não foi só um triatlo… foram dois.
O plano era o seguinte: meio de julho eu faço uma versão super-reduzida do triatlo, só pra ver como é, e aí no fim de julho faço um evento grande.
Triatlo 1 - versão “kids”
O evento, chamado give it a tri, tem só uns 25% das distâncias do triatlo olímpico. É “kids” mesmo, tanto que haviam vários pais acompanhando os filhos adolescentes.
Meu regime de treinamento pra prova foi uma técnica inovadora chamada Método Inocêncio, que consiste em dois passos simples:
- confirmar que consigo correr/nadar/pedalar distâncias maiores que as da prova
- ir fazer a prova
Eu tinha zero preocupações com o pedal (10km) e com a corrida (2,5km). Já para a natação (450m) eu resolvi usar o Método Inocêncio advanced: nadar 500m um dia, na piscina da academia, parando de 50 em 50 metros, e acreditar que no dia vai ser de boas fazer a mesma coisa num rio, com água turva, cheio de gente em volta, e sem lugar pra parar e descansar.
Faltando duas semanas pro evento eu, felizmente, fui ler o guia detalhado da prova e me deparei com um detalhe importante: dependendo da temperatura da água, usar uma roupa de mergulho - aquela de neoprene - passa a ser obrigatório. E tem duzentos tipos, manga longa ou curta, com espessuras diferentes pra temperaturas diferentes, com fatores de flutuação diferentes, etc. No fim, tive que comprar uma online, às pressas, rezando pro tamanho estar correto. A recomendação de todos os sites de triatlo sobre a roupa de mergulho é gastar um tempo se familiarizando com ela, porque é super complicada de vestir e pior ainda pra tirar porque, molhada, ela fica pesada e gruda no corpo. Tudo que eu tive foi uma horinha, numa tarde de domingo, pra vestir a parada uma única vez. Consegui entrar nela, com algum sacrifício, mas tava valendo.
Faltando uma semana, a logística do evento já tava toda preparada, minhas listas do que levar todas revisadas, então estava confiante… até a quarta-feira, quando acordei doente. Garganta ruim, nariz entupido, a coisa toda. Aí começou uma maratona paralela, a de ver se eu conseguia me recuperar antes da prova no domingo. Na sexta eu estava um pouco melhor, mas fiz as malas e carreguei o carro desacreditado de que eu ia conseguir competir no domingo. Graças à boa vontade de Bethania, eu consegui um atestado médico do meu emprego de olhar menino e ela ficou com o Tom na primeira metade do sábado, enquanto eu me enfiei debaixo das cobertas do hotel e fiquei quietinho, descansando e assistindo o Tour de France. A dúvida persistiu até a manhã seguinte quando, felizmente, finalmente, acordei me sentindo bem o suficiente.
No domingo cedo lá estava eu, na área de transição, arrumando minhas tralhas. Um dos motivos que me levou a fazer essa versão mini do triatlo era me familiarizar com o processo de fazer três esportes na sequência. Porque você começa nadando, aí sai molhado e tem que ir pra bicicleta, e com isso vem as questões: o que você veste pra nadar? Como sair da roupa molhada, ao ar livre, pra alguma coisa seca antes do pedal? (resposta: não troca, vai molhado mesmo). Como você faz com aquela cartelinha com seu número de participante, que é obrigatório usar, e você tem que arrumar um jeito de botar aquilo logo depois de sair da água? E a troca pro tênis de corrida quando sua bike requer aquela sapatilha especializada que tem presilhas pros pedais? E se der sede? E como faz se você usa óculos de grau? Tinha tanta coisa pra pensar que o gênio aqui, por muito pouco, não se esqueceu de botar o chip que conta os tempos da prova no tornozelo.
Faltando uns vinte minutos pra largada, resolvi começar a entrar na roupa de mergulho de novo… e aí o aperto começou, literal e figurativamente. Tava calor, eu estava suado, e com a pele grudenta de protetor solar a bendita roupa de neoprene tava super difícil de vestir, e o puxa-repuxa me deixava ainda mais suado, e quando eu finalmente entrei naquela desgraça eu já estava exausto, e sem tempo pra recuperar o fôlego porque já estavam chamando todo mundo pra ir pro rio nadar.
A largada é de dentro da água mesmo; pra não dar muvuca eles fazem uma fila na ordem do seu número de participante e, de cinco em cinco segundos eles liberam uma pessoa. Como todo mundo ao meu redor também era iniciante, tava todo mundo batendo papo e se desejando boa sorte. Uma pessoa atrás de mim chegou atrasada na fila e comentou, aos risos: “desculpa gente, eu tava ali tendo um mini-ataque de pânico”. Eu respondi: “bom, na minha família a gente tem o costume de internalizar essas coisas, mas pode crer que eu tou exatamente aí onde você está”.
Chegou a minha vez na fila. Botei os óculos de nadar e eles imediatamente embaçaram. “É, vai no tato mesmo”, pensei. O fiscal de prova chamou meu nome e deu a contagem regressiva: “three… two… one… GO!”

Eu não via nada debaixo d’água, e quando me virava pra respirar era só borrão, mas fui em frente. Quando vi, estava nadando tranquilo. A tranquilidade durou aproximadamente cinquenta metros: fui ficando sem ar, então fui nadando mais devagar, mas com menos braçadas eu respirava menos, o que me deixava mais nervoso, e então eu acabava interrompendo o nado pra pegar um ar na superfície, e a bóia que marcava o percurso ainda parecia bem distante, e quando eu tentava recomeçar a nadar a falta de ar voltava depois de meia dúzia de braçadas, e aí eu parava de novo, e aí via que não tinha progredido quase nada, e aí eu me perguntei o que diabos eu inventei de ir fazer ali.
Uns cinco minutos depois e eu devia ter nadado uns 150 metros. Ritmo absolutamente ridículo - se eu nadasse cachorrinho iria mais rápido. Felizmente, a roupa de mergulho dá uma boa flutuação adicional, então eu conseguia me virar de costas e ficar boiando feito um peixe-boi ofegante pra recuperar o fôlego por alguns segundos. Numa dessas, eu notei que um dos participantes do meu lado se agarrou no caiaque de um dos fiscais de prova. Eu não via nada, mas pelo que ouvi o cara estava ainda pior que eu. E aí o fiscal de prova, ao invés de socorrê-lo (o que iria desqualificá-lo), estava simplesmente botando a cabeça dele de volta no lugar: “Tá tudo bem, respira fundo. É só respirar. Você consegue. Tá tudo bem”.
Retomei o meu ritmo de tartaruga. Tirei os óculos de nadar, pois estavam irritando mais do que ajudando. A única referência que eu tinha dentro da água era o branco da sola do pé de quem estava nadando na minha frente, que eu seguia até o sufocamento ficar difícil de segurar. Aí parava, e ia de novo. A sensação que eu tive foi que essa experiência de quase-morte na água durou uns 40 minutos (na realidade não foram nem 15). Quando saí da água, tudo que eu queria era tirar a roupa de mergulho e nunca mais usar nenhuma vez pelo resto da minha vida. É claro que Deus ouviu, e eu demorei uma eternidade pra desgrudar aquele simbionte molhado de mim pra, finalmente, subir na bicicleta.

Já a bike foi só alegria. Eu tava molhado, zonzo, ofegante, mas foi só clipar os pés nos pedais e eu instantaneamente estava quentinho, debaixo do cobertor, na minha zona de conforto. É impossível ser infeliz em cima da bicicleta. E, na metade do caminho, encontrei a minha torcida: Bethania, Tom, e a família do Alexandre (que me chamou pra essa roubada, e fez a prova no dia anterior) foram me ver na beira da estrada. Eles gritaram “aêêê!”, e eu gritei de volta: “EU ODIEI A NATAÇÃO!”. Se o nado demorou uma eternidade, a bike passou rapidinho, e quando vi já estava trocando os sapatos pra ir correr.
As pernas estavam meio duras pra corrida, mas eu estava empolgado. Alguns competidores haviam reduzido o ritmo e seguiam fazendo caminhada, mas eu estava confiante que conseguiria completar. Uma coisa me deixava meio confuso: quando eu passava pelos voluntários do evento no trajeto, todos eles me chamavam pelo nome: “Looking good, Joe!”, “Let’s go, Joe!”. Eu passei metade da corrida me perguntando como diabos eles sabiam meu nome. Será que o chip no meu tornozelo me identificava quando eu cruzava as parciais do circuito? Foi só no final do evento que me toquei que a cartela com o meu número de participante tinha também o meu nome…
Mas o vacilo grande mesmo foi bem na linha de chegada. As fotos que você viu até então são todas de fotógrafos profissionais, estrategicamente posicionados ao longo do circuito, e na chegada havia uma câmera montada num tripé, tirando foto a cada cinco segundos. Daí eles separam as fotos de cada participante pelo número, e te mandam um e-mail com sua galeria personalizada no dia seguinte. Na minha galeria vieram todas as fotos… exceto a da linha de chegada. Aí fui no site do evento, cliquei em “todas as fotos”, procurei minha foto no olho mesmo… e nada. Aí comecei um trabalho de detetive: eu procurava um número de participante que completou a prova num tempo próximo do meu, achava a foto da pessoa na galeria, e aí ia checando as fotos imediatamente antes ou depois. E então desvendei o mistério: é que a Michele, nossa ilustre participante de número 511, cujo sobrenome provavelmente é “Filhadevidraceiro”, decidiu que a melhor hora pra passar casualmente em frente à linha de chegada foi exatamente na hora que eu concluí a prova.

Resultado final
- Natação (450m) - 14:35
- T1 - 3:03
- Bicicleta (10km) - 19:17
- T2 - 1:47
- Corrida (2,5km) - 17:40
- Total - 56:18
27º lugar geral (91 participantes), penúltimo entre os cinco competidores da categoria masculino 40-49 anos.
Triatlo 2 - versão “sprint”
Esse já é no créu com um pouco mais de velocidade: 750m de natação, 20km de bike e 5km de corrida - metade das distâncias do triatlo oficial das olimpíadas.
Mas antes, precisamos ter uma conversa séria sobre a natação. O triatlo anterior foi no domingo, e a primeira coisa que eu fiz na segunda seguinte foi entrar no site do triatlo sprint pra tentar mudar minha inscrição para um duatlo (apenas bike + corrida). Para meu total desapontamento, o evento não tinha essa opção. Então, fui de plano B: depois do trabalho, comprei um novo par de óculos de natação, arremessei os óculos anteriores o mais longe que consegui, e fui direto pra piscina da academia, com um único objetivo: treinar meu cérebro pra ficar calmo quando eu estiver sem fôlego e com a cara enfiada na água.
Eu não tinha dúvidas que meu problema de performance era puramente mental, e isso ficou bem evidente no primeiro dia de volta na piscina: nadei 1000 metros em meia hora, sem dificuldade. Aí, fui experimentando o ritmo das braçadas, e confirmei o que meu treinador (o famoso Dr. Vídeos do YouTube) havia recomendado: a decisão contra-intuitiva de respirar com menos frequência. O problema que derruba o nadador não é falta de oxigênio, e sim excesso de gás carbônico, e de fato o que melhorou meu nado foi gastar um pouco mais de tempo soltando ar debaixo d’água. Também me treinei para recuperar o fôlego sem parar de nadar, simplesmente trocando pra um estilo de baixo impacto (peito), afinal é desperdício de tempo ficar boiando imóvel na água. Uma meia dúzia de piscinadas depois e eu estava pronto pra me fuder de nov… digo, bem mais confiante.
Outra coisa que ajudou foi ler o manual. Pessoas que leem o manual sempre se dão bem. Numa das muitas vezes que fiquei fritando de ansiedade com essa prova, eu fui reler o guia do participante e uma das regras dizia que não tinha problema ficar de pé na água para descansar durante a etapa de natação. Mas eu não sou Jesus, então como assim ficar em pé na água? Fui pesquisar e descobri que o nado seria numa parte do lago que é fechada para competições de canoagem, e que tem um metro e meio de profundidade. Aí, me acalmei, pois de afogamento eu não morreria.
O triatlo kids foi uma ótima primeira experiência, mas foi um evento pequeno numa cidadezinha do interior. O triatlo novo seria um puta festival, um dos maiores eventos multiesporte do ano, bem no centro de Toronto, com milhares de participantes, com profissionais competindo e o escambau. Entrar num evento deste tamanho com experiência prévia fez uma diferença absurda pra mim. Mais um ponto pro meu lado bom de planejamento. Cheguei tranquilo no dia, botei a bike na transição, reservei o dobro do tempo pra entrar de novo na bendita roupa de mergulho… e fui pra beira do lago. E tava uma farofa: uma fila enorme, com torcida misturada com transeuntes, com participante chegando atrasado, participante fumando (!!), mas foi até bom pra me distrair da espera e da ansiedade de cair na água de novo.
Dessa vez a largada era “seca”: você pula do deck direto na água e sai nadando. Uma coisa que confunde os não-canadenses é que, mesmo nos dias mais quentes do verão, a água do lago é sempre muito gelada. Eu esperava um frio estilo “cachoeira da Serra do Cipó em dezembro”, mas assim que pulei, senti um imediato remorso de todas as vezes que xinguei minha roupa de mergulho, porque a água estava UM GELO TOTAL. Minhas mãos e pés imediatamente ficaram dormentes, mas o resto estava quentinho, graças aos deuses do neoprene.
Como esperado, meu preparo na piscina funcionou perfeitamente. Não fui rápido, mas fui mil vezes mais eficiente - e relaxado - do que o triatlo anterior. Eu quase passei da bóia que marca o retorno do meio do caminho, estava tão focado nas braçadas que quase saí do percurso. Felizmente a fiscal de prova num dos caiaques me trouxe de volta pra realidade. Por outro lado, eu não estava preparado pra quantidade de gente: toda hora alguém se enfiava na minha frente ou um braço trombava com alguma perna. Inclusive teve uma hora em que alguém agarrou meu tornozelo (talvez a Michelle Filhadevidraceiro?). Não demorou muito e eu completei o percurso, e vocês não tem noção da alegria, não somente por não ter nunca mais que passar por essa celeuma novamente, mas também porque eu estava prestes a pegar minha bicicleta e cruzar o centro de Toronto da forma mais cinematográfica possível.
Fala sério, olha isso.

Na bike eu pisei fundo, não economizei energias, fui em ritmo taca-lhe-pau do primeiro ao vigésimo quilômetro. Eventualmente, um triatleta de verdade me passava zunindo na sua tribike, mas na maioria das vezes só dava eu passando os outros amadores. E quando estou passando por situações intensas, minha mente dá uma dissociada, o que gera efeitos colaterais engraçados. O mais comum deles é que sempre começa a tocar uma música, sem parar, na minha cabeça, e a música escolhida pelo meu subconsciente foi uma das piores porcarias que o Tom estava ouvindo no carro algumas horas antes: “The Fox”, uma paródia dance music de dois comediantes noruegueses. A letra é toda sobre a peculiar curiosidade de que ninguém sabe o som que as raposas fazem.
O refrão é um deles perguntando, outro respondendo:
“Que som a raposa faz?” “Ding ding ding di-ding, ding ding ding di-ding…” “O que a raposa faz?” “Pá pá pá pa-páu, pa-páu! Prrrrá-pá pá pá pa-páu!”
Eu transicionei da bike pra corrida e a música da raposa ainda tava lá, sem parar. E a corrida, aparentemente, era onde TODO MUNDO do triatlo resolveu se encontrar. É que os competidores do olímpico e do sprint dividiam o mesmo circuito, que era uma única faixa estreita da avenida que fecharam em frente ao local do evento. Então tinha carro passando, polícia no cruzamento, pedestre desavisado, competidor exausto andando lentamente, competidor nervoso correndo loucamente…
A parte boa é que muita gente significa também muita platéia. É muito legal ver a turma trazendo cartazes pra apoiar parentes ou amigos. Tinha uma mulher com um cartaz que dizia “alguém viu o meu marido??”. Outro dizia “Lembre-se: você PAGOU pra fazer isso!”. O melhor que vi foi um cuja piada, infelizmente, só funciona em inglês:
“Pain” is just the French word for “bread”
Mesmo depois de 20km de bike e 5km de corrida, “pain” eu não tinha nenhuma - cheguei inclusive a apressar o passo no final, animado com a perspectiva de concluir com sucesso meu primeiro triatlo de verdade. É meio surreal quando você sai do circuito em direção à chegada, cercado de espectadores de um lado e de outro, e percebe que faltam apenas alguns segundos pra terminar algo que, na verdade, começou muitos meses atrás, quando a cidade ainda estava coberta de neve e você resolveu trocar a insônia pela esteira às quatro da manhã, quando vinte minutos na piscina deixavam os braços doendo por dois dias, e vinte quilômetros na bike levavam horas e ardiam as coxas. Mas aí você continua marcando presença e, bem aos poucos, os braços doem menos, e começam a caber quilômetros extras no pedal de depois do trabalho, e a playlist do YouTube pra esteira cresce pra mais de uma hora. No dia a dia o progresso é quase imperceptível, pequeno demais pra aparecer, e então, meses depois, coisas impensáveis ficam possíveis, depois ficam comuns, e então todos os pequenos progressos se tornaram um só, monumental, e você está terminando um triatlo aos quarenta e sete anos de idade.
E então, faltando alguns metros pra linha de chegada, você dá uma paradinha… porque tem gente na sua frente e você quer que a foto fique boa dessa vez.

Resultado final
- Natação (750m) - 18:56
- T1 - 7:39 (o lugar era super longe do lago)
- Bicicleta (20km) - 40:58
- T2 - 2:27
- Corrida (5km) - 27:04
- Total - 1:37:00
256º lugar geral (620 participantes), 13º lugar entre os 24 competidores da categoria masculino 45-49 anos.