Janeiro

Maturidade é mudar a sua resposta para a pergunta: “você quer ser feliz ou você quer ter razão”?

Lá fora, o mundo era só guerra da Ucrânia, Trump, e inteligência artificial. Comecei a ficar bem cansado do ciclo doido de notícias e da loucura das redes sociais e, nessa, comecei a experimentar outras opções. Por exemplo, baixei o Death Stranding, o aclamado jogo de Hideo Kojima, e fiquei lá brincando de entregador.

Além disso, o meu esforço de melhorar o tempo ocioso - longe do celular e perto da música - estava indo bem e dando bons frutos. Foi nesse mês que reparei que minhas brincadeiras com o OP-1 já haviam resultado em várias música inéditas. Na manhã do dia 22 eu peguei o trem pro trabalho, puxei o celular do bolso e, ao invés de abrir o Insta ou qualquer merda parecida, abri o bloco de notas e montei uma track list. Deu 50 minutos, o tempo certinho da minha viagem diária de trem pro trabalho. O finado David Lynch diria que “é cósmico”.

Tracklist do CD

Fevereiro

Fevereiro é o ponto alto do inverno. Esse ano tivemos tanta neve que deu pra fazer um tobogã pro Tom na porta de casa.

Tobogâ do Tom

Tom fez cinco anos, por sinal, e além de meu filho é meu parceiro de horas matando tempo no basement, ouvindo música, fazendo shows, cantando karaokê ou assistindo a versão pra crianças do desenho do Homem Aranha. Nosso relacionamento anda cada vez mais profundo e é legal demais ver esse laço crescendo a cada dia.

Minha higiene online seguia progressivamente melhor. Ando evitando cada vez mais os algoritmos e as timelines públicas, e pensando se deveria cortá-las por completo.

Março

Tempos pesados no trabalho, com reorganizações e, com isso, demissões. Mas eu e Bethania continuamos estáveis, felizmente.

Desde cedo o Tom já curte viajar. E não precisa ser nada chique: ele fica animadíssimo mesmo pra um bate-volta simples de final de semana - tipo o que fizemos neste mês, quando pegamos o carro e fomos pra Kingston, cidadezinha próxima que não tem nada de mais além de um ótimo pretexto pra gente passar tempo junto no hotel.

Além disso, tirei outros dois dias adicionais de férias do trabalho pra encerrar outro trabalho: o álbum “The Sounds I Like”. Fiquei bem feliz com o resultado.

Abril

Já que o Tom demonstrou interesse pelos nossos bate-voltas de final de semana, na páscoa fomos até Sudbury, a cidade do famoso “big nickel”, uma moeda gigante simbolizando as riquezas minerais da região. Visitamos o museu de ciências e fizemos um passeio numa mina de verdade. Super legal.

Big Nickel

Na política, o partido liberal ganhou as eleições e, por ora, escapamos de cair no buraco negro que engoliu os EUA. Por sinal, esse é outro motivo pelo qual andamos viajando dentro do país; tínhamos até uma ida pra Disney programada com o Tom que, sob minha insistência, cancelamos. Pau no cu do Trump.

Maio

Meu celular caiu na privada.

Inicialmente, foi um cocô (hein, pegou essa). Até que, na hora de reinstalar tudo no telefone novo, eu cheguei na parte das redes sociais e pensei… “eu preciso mesmo de Instagram nesse telefone?”. Só sobrou o Mastodon e o Tumblr, basicamente. O resto, cortei por completo. Devia ter feito isso antes.

Além da saúde mental, fui cuidar da saúde física: no começo do mês voltei ao médico pro check-up de sempre. Com exatamente 759 dias sem beber, foi com muita surpresa que recebi o diagnóstico de… fígado gorduroso, de novo.

Agora preciso largar os carboidratos e o açúcar. Viverei de sol e de boas intenções, aparentemente.

O lado bom é que, com o aniversário de Bethania passando, eu dei de presente pra família toda uma inscrição na academia local, que passei a frequentar.

Junho

A série de viagens “grandes bate-voltas canadenses” é um sucesso absoluto. Este mês fomos até London conhecer um museu para crianças. E que museu, meus amigos: nada de “aprendizado lúdico”, nada de curadoria adulta, é um museu feito para crianças brincarem. Tem uma mini-cidade pra brincar de médico ou bombeiro, tem uma estação espacial pra ser astronauta, uma fazenda, e por aí vai. O Tom brincou por HORAS e parou só porque não aguentava mais.

Children's museum

Julho

Verão por aqui é época de sol, calor e… fazer as obras que não dá pra fazer no inverno. Refizemos o nosso banheiro, a iluminação do quarto, e renovamos a pintura da sala.

Grande vitória obtida também na criação do Tom: agora o menino está fascinado com CDs. Ele adora ir comprar discos comigo. O gosto musical dele passa por tudo que é canto, de Disney até Lady Gaga, e incluindo clássicos da Broadway.

Tom comprando discos

No trabalho, saímos de demissões direto pra contratações e eu entrei na loucura de fazer as entrevistas… que foi outra coisa que a inteligência artificial estragou. Se a entrevista é online, todos os candidatos usam ChatGPT. É um saco.

Meu antídoto pra isso foi escrever um trechinho de código, curto o suficiente pra eu poder mostrar na tela, mas longo o suficiente pra não ser copiável no ChatGPT. E o código é intencionalmente super mal feito. Aí eu pergunto o candidato: “revisa isso aqui e me dê sugestões de melhoria”. Os cabras ruins fracassam imediatamente. Muitos sequer conseguem entender o que está na tela. Já os bons candidatos tem a chance perfeita de deixar uma boa impressão.

Surpreendendo até a mim mesmo, eu sigo firme e forte na academia - a ponto de desgastar completamente meu tênis de corrida.

Tênis de corrida destruídos

Agosto

Mês agitado de verão, com acampamentos, churrascos e um monte de coisa pra fazer.

No fim do mês, com o verão terminando, animados com os bons resultados dos grandes bate-voltas canadenses, resolvemos fazer um plano mais ousado. Tiramos uma semana de férias e nos aventuramos a dirigir 800 quilômetros até Quebec City. No primeiro dia de estrada, obviamente, o Tom me volta do daycare com uma diarréia daquelas explosivas… mas brasileiro não desiste nunca e, graças ao penico portátil que Bethania sempre deixa no carro, não perdemos nenhum dia de passeio.

E nossa estadia não foi pouca bosta não (hein, pegou essa?): graças ao desconto corporativo do banco, nos hospedamos no icônico Chateau Frontenac, histórico hotel-castelo que compõe a paisagem de Quebec City. Vou guardar com carinho a lembrança de acordar às seis da manhã, botar os (novos) tênis de corrida, e ter o centro histórico da cidade todinho, sem turistas, à minha disposição pra passear.

Chateau Frontenac

Tive também a chance de reproduzir uma foto boba de 20 anos atrás, da primeira vez que visitei o Canadá, ainda na época da consultoria. Nada mudou e tudo está diferente.

Arret - 20 anos depois

Setembro

Realizei meu sonho antigo de pedalar os 55km da porta de casa até o centro de Toronto. Esse dia foi foda.

Neste mês eu estava dando manutenção aqui no blog e reparei que ele havia recebido quase 3 mil visitas no último mês. Fiquei surpreso. Aí notei que as 3 mil visitas vinham todas de países que não falam português, como os EUA e a Inglaterra. Tudo bot chupando meu conteúdo pra treinar inteligência artificial.

Por outro lado, no Brasil finalmente saiu a sentença de Bolsonaro, o genocida filho da puta. Desejo a ele vida longa pra cumprir cada minuto dos 27 anos de prisão.

Outubro

Meu pai veio passar o mês conosco, pra celebrar os aniversários (meu e dele) e ver a chegada do outono.

Como meu pai é do interior, sempre que a gente vai acampar ele falava das saudades que tem de passar tempo no meio do mato. Mas nessa época, infelizmente, já está frio. Felizmente, achei uma solução alternativa: fomos passar um final de semana num mini-chalé, construído em cima de uma carroceria de caminhão, no meio do mato. Nem internet tinha. O Tom adorou ficar assistindo os DVDs do lugar.

mini-chalé

No final do mês, os Blue Jays - o time de baseball canadense - chegou, pela primeira vez em mais de 30 anos, na grande final do campeonato. Assim sendo, meu pai deu a sorte de, além de tudo, pegar uma final histórica de World Series pra assistir. E, pra encerrar a estadia, ainda teve a chance de vivenciar, no dia 31, o legítimo halloween da América do Norte. Ele adorou.

Novembro

No mesmo espírito de retrospectiva, refiz uma coisa que há muito tempo não fazia: viajar à trabalho. Passei dois dias em Montreal e foi suficiente pra confirmar que, de fato, já não aguento mais essa vida de hotel que aguentei por tantos anos na época da consultoria.


Este ano, Bethania me deu de aniversário um livro sobre a história do ciclismo em Toronto. Uma bela ideia de presente (como todas dela), até eu abrir o livro e, infelizmente, perceber que o autor é um xarope terrível e que o livro ia ser um suplício de ler. Aí, fui na livraria e troquei por um que estava no meu radar há algum tempo: “O Caminho Do Artista”, uma espécie de livro-curso sobre criatividade.

O livro é surreal. A abordagem dele inclui, entre outras coisas, abordar o processo criativo como uma manifestação divina nas mãos do artista, entender a vida como “pura energia criativa”, entre outras coisas estapafúrdias que vão completamente na contramão de pessoas racionais e objetivas, como eu sempre fui. No entanto, outras coisas que eu sempre fui são: “curioso” e “sempre disposto a se reinventar pra se melhorar”.

O livro tem um capítulo inteiro sobre prestar atenção. Nele, a autora conta a história da sua avó, que vivia com um cara maluco viciado em jogo e tinha uma vida caótica e problemática. Mas quando ela escrevia pra família, as cartas dela não focavam na tragédia, e sim nas coisas simples e bonitas que aconteciam ao redor dela:

“Não sei como ela aguenta”, minha mãe reclamava (…) Mas a verdade é que todo mundo sabia como minha avó aguentava. Ela se mantinha de pé, com os joelhos mergulhados no fluir da vida, sempre prestando muita atenção. Minha avó se foi antes que eu pudesse aprender a lição que suas cartas ensinavam: a sobrevivência depende da sanidade, e a sanidade consiste em prestar atenção. Sim, suas cartas diziam, a tosse do vovô estava piorando, nós perdemos a casa, não temos dinheiro e ele não tem emprego, mas os lírios estão florescendo, a lagartixa achou seu lugar ao sol e as rosas estão firmes apesar do calor. Minha avó sabia o que uma vida dolorosa lhe ensinara: seja um sucesso ou seja um fracasso, a verdade de uma vida realmente tem pouco a ver com sua qualidade. A qualidade da vida é sempre proporcional à sua capacidade para o deleite. A capacidade de se deleitar é o dom de prestar atenção.

Neste ano eu gastei a cota inteira de reembolso de psicoterapia do convênio do trabalho. Ontem eu estava com dor de garganta e o Tom cismou que não queria ir dormir e fez um drama enorme de uma hora e meia, gritando e chorando até dormir de exaustão… aí, acordou às duas da manhã e resolveu continuar a birra por mais duas horas. Semana passada eu reparei que o Uber, que eu nunca uso, subitamente estava me cobrando mensalidade há um ano e meio, e já vou pra terceira semana brigando com o suporte deles pra conseguir reembolso. Mas você leu bem pouco sobre perrengues na retrospectiva desse ano, pois a qualidade da vida é sempre proporcional à capacidade de se perder nas pequenas e grandes alegrias, no dom de prestar atenção.

É com muito orgulho que eu concluo que, este ano, eu prestei bastante atenção.


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